Liberdade religiosa

As leis anticonversão da Índia: treze estados, uma mesma lógica.

Elas se chamam oficialmente leis de “liberdade religiosa”. Na prática, exigem aviso prévio ao governo para mudar de fé, punem a conversão com anos de prisão e transformam o cotidiano de uma igreja em matéria policial.

Ilustração: livros de leis e uma Bíblia fechada sobre a mesa de uma repartição indiana

Treze dos 28 estados da Índia têm hoje uma lei que controla a conversão religiosa. O nome oficial quase sempre fala em “liberdade de religião”, e o objetivo declarado é impedir conversões feitas à força, por fraude ou em troca de vantagens. O efeito, segundo organizações de direitos humanos e as próprias igrejas indianas, é outro: a lei vira instrumento para acusar pastores, interromper cultos e pressionar famílias que decidiram seguir a Cristo.

13 de 28

estados com lei anticonversão em vigor (set/2026)

1967

ano da primeira lei, em Odisha

até prisão perpétua

pena máxima prevista em Uttar Pradesh e em Rajasthan

Quais estados têm lei, e desde quando

EstadoLeiObservação
Odisha1967A primeira do país
Madhya Pradesh1968; nova lei em 2021Um dos estados com mais prisões de pastores
Arunachal Pradesh1978Nunca regulamentada, mas segue no papel
Chhattisgarh2000 (herdada de MP); endurecida em 2006 e em 2026Estado com mais incidentes contra cristãos, ao lado de Uttar Pradesh
Gujarat2003; alterada em 2021
Himachal Pradesh2006; nova lei em 2019, alterada em 2022
Jharkhand2017
Uttarakhand2018; alterada em 2022 e 2025Primeira a tratar de casamento e conversão juntos
Uttar Pradesh2021 (decreto em 2020); endurecida em 2024Pena de até prisão perpétua nos casos graves
Karnataka2022Revogação prometida em 2023, ainda não votada
Haryana2022
Rajasthan2025A mais dura: 7 a 14 anos, perpétua em “conversão em massa”
Maharashtra2026 (em vigor desde 28/08)Aviso prévio de 60 dias; contestada na Justiça

Tamil Nadu chegou a ter uma lei parecida, de 2002, revogada em 2006 depois de protestos de cristãos e de outras minorias. Karnataka pode ser o próximo caso: o governo eleito em 2023 prometeu revogar a lei, aprovou a revogação no gabinete, mas até setembro de 2026 não a levou à votação.

O que essas leis proíbem

O texto muda de um estado para outro, mas o desenho se repete:

  • Conversão por “força, fraude, aliciamento ou casamento”. A palavra que mais pesa é “aliciamento” (allurement): em várias leis, ela é ampla o bastante para incluir presente, emprego, escola gratuita, atendimento de saúde e até a promessa de uma vida melhor. Uma oração pelo enfermo ou uma cesta básica passam a poder ser lidas como crime.
  • Aviso prévio ao governo. Quem quer mudar de religião precisa avisar o magistrado do distrito com antecedência — 30 dias em Karnataka, 60 em Maharashtra —, e em alguns estados o pedido é publicado, o que expõe o convertido à família e à vizinhança antes mesmo da decisão.
  • Ônus da prova invertido. Em estados como Uttar Pradesh e Rajasthan, cabe ao acusado provar que a conversão foi livre, e não à acusação provar que houve coação.
  • Penas maiores para alguns grupos. A punição aumenta quando o convertido é mulher, menor de idade ou pertence às castas e tribos registradas — justamente os grupos entre os quais o cristianismo mais cresceu.
  • Crime inafiançável. Em várias leis a acusação permite prisão imediata, sem fiança, e pode ser feita por qualquer parente — ou, em alguns estados, por qualquer pessoa.

O que as leis não proíbem

Uttarakhand, Himachal Pradesh, Uttar Pradesh e Rajasthan escrevem na própria lei que “voltar à religião ancestral” não conta como conversão. Na prática, as cerimônias de reconversão ao hinduísmo — o chamado Ghar Wapsi — ficam fora do alcance da lei, mesmo quando feitas sob pressão, enquanto a decisão inversa exige aviso prévio e pode render processo.

Por que elas atingem os cristãos

A maioria das acusações nasce de uma denúncia de vizinho ou de grupo organizado durante um culto, uma reunião de oração ou uma festa de família. Em 2025, segundo levantamento da organização Citizens for Justice and Peace, foram registradas 230 queixas criminais contra cristãos, 155 delas com base nas leis anticonversão — e só 45 contra os grupos que atacaram as reuniões. A Índia lidera hoje o mundo em prisões e detenções de cristãos, segundo a Lista Mundial da Perseguição 2026.

Os casos acompanhados nas notícias deste site mostram o padrão: um pastor preso no meio do culto em Madhya Pradesh, sete cristãos condenados a cinco anos por uma festa de aniversário, famílias expulsas de uma vila em Chhattisgarh.

O que está em jogo agora

Petições que questionam várias dessas leis estão na Suprema Corte da Índia, e a nova lei de Maharashtra já foi contestada no Tribunal Superior de Bombaim. Uma decisão de mérito sobre privacidade, aviso prévio e ônus da prova valeria para o país inteiro. Enquanto isso não acontece, a tendência é de leis mais duras, não mais brandas: Chhattisgarh e Uttar Pradesh endureceram as suas, Rajasthan e Maharashtra entraram na lista, e outros estados discutem projetos semelhantes.

Ore com a gente

Quem vive isso precisa de oração — e de formação

Receba todo mês motivos de oração reais pela Índia, ou conheça o projeto que traduz um curso de teologia para pastores indianos.

Assinar a newsletter Conhecer o projeto