História

O apóstolo Tomé esteve na Índia? O que a história diz.

Não há prova de que Tomé tenha pregado na Índia, mas também não há prova em contrário, e o debate é sério. O que existe é um texto do início do século III, uma inscrição que confirma que o rei citado nesse texto realmente existiu, e uma tradição viva em Kerala. Cada peça pesa de um jeito, e vale não misturá-las.

Ilustração: barcos de pesca de madeira numa praia da costa do Malabar, em Kerala, com coqueiros ao entardecer

O que a tradição afirma

A tradição das igrejas de Kerala diz que o apóstolo Tomé desembarcou em Muziris, na costa de Malabar, em 52 d.C., fundou comunidades em sete localidades e morreu como mártir em Mylapore, perto da atual Chennai, em 72 d.C. Esses cristãos são conhecidos como Cristãos de São Tomé. A Britannica estima cerca de 4 milhões de Cristãos de São Tomé na Índia no início do século XXI, a maioria em Kerala. O censo indiano de 2011 contou 6,1 milhões de cristãos em Kerala, mais do que em qualquer outro estado, como mostra a página sobre quantos cristãos há na Índia e onde vivem.

A Enciclopédia Britannica trata a chegada de 52 d.C. como tradição cuja historicidade não está comprovada, e acrescenta que há indícios de cristãos na costa de Malabar desde o século II ou III.

O texto mais antigo: os Atos de Tomé

O documento mais antigo que liga Tomé à Índia é os Atos de Tomé, um escrito apócrifo composto em siríaco, provavelmente em Edessa, no início do século III. Não faz parte do cânon e mistura narrativa edificante com lendas. Nele, Tomé é vendido como escravo a um mercador chamado Abbanes e levado à corte de um rei chamado Gondofares.

Um detalhe importa para quem conhece só a versão de Kerala: nos Atos, a Índia de Tomé é o noroeste do subcontinente, região do atual Paquistão e do Punjab, e não a costa de Malabar.

Gondofares existiu: moedas e inscrição

A Encyclopaedia Iranica descreve Gondofares como rei indo-parta que governou regiões entre a Drangiana, a Aracósia e o Punjab, com reinado datado de 20 a 46 d.C. Ele é conhecido por moedas de prata e de cobre.

A peça mais citada é a inscrição em caracteres kharoshthi de Takht-i-Bahi, no atual Paquistão. Ela menciona o “grande rei Gondofares” e traz duas datas: o 26º ano do reinado dele e o ano 103 de uma era. Se essa era é a Vikrama, que começa em 57 a.C., o ano 103 corresponde a 46 d.C., o que põe o início do reinado por volta de 20 d.C. Essa cronologia é compatível com um encontro de Tomé com o rei nas décadas de 30 ou 40.

Os dois lados do debate:

PosiçãoArgumento
A favor de uma missão no noroesteO rei existiu, na época certa e na região certa, e o nome aparece em moeda e em pedra
CéticoO texto só aparece quase dois séculos depois dos fatos; o nome pode se referir a um sucessor ou a um título; a inscrição prova o rei, não o apóstolo

Convém notar que a inscrição não menciona Tomé. Ela confirma o cenário histórico do relato, mas não o relato.

Panteno, Bartolomeu e outros testemunhos

O historiador Eusébio de Cesareia, no século IV, relata (como notícia que lhe chegou) que Panteno, mestre cristão de Alexandria, foi enviado à Índia ainda no século II. Segundo Eusébio, Panteno encontrou ali cristãos que já tinham o Evangelho de Mateus em hebraico, deixado, diz o texto, pelo apóstolo Bartolomeu. Eusébio, portanto, não cita Tomé nesse trecho. O que ele registra é que a ideia de cristãos na Índia, no século II, já circulava.

Para os séculos seguintes há registros de igrejas de tradição siríaca. Cosmas Indicopleustes, no século VI, descreve cristãos no Ceilão e na Índia. As placas de cobre de Tharisapalli, do século IX, registram uma concessão real a um mercador cristão de tradição siríaca em Kerala. A Britannica (verbete de Robert Frykenberg) lembra que refugiados cristãos de língua siríaca vindos da Mesopotâmia chegaram depois à costa de Malabar, numa migração que a tradição local situa no século IV.

Tradição e evidência, lado a lado

AfirmaçãoTipoObservação
Tomé foi à ÍndiaTradição antiga, ligada a um texto do século IIIPossível, não comprovado
Gondofares reinou no noroeste no século IEvidência (moedas e inscrição)Aceito, com discussão sobre sucessores
Tomé chegou a Kerala em 52 d.C.Tradição localA Britannica a classifica como não comprovada
Tomé morreu em Mylapore em 72 d.C.Tradição localSem fonte contemporânea
Havia cristãos na costa de Malabar até o século IIIIndícios (cruzes de pedra, placas, relatos)Aceito de modo geral

O que dá para dizer com honestidade

Uma igreja cristã antiga, de língua siríaca, existe em Kerala há muitos séculos, e isso é fato histórico. A origem apostólica dessa igreja, por Tomé, é uma tradição respeitável que a pesquisa não consegue nem provar nem descartar. Para o leitor evangélico, vale lembrar que a fé não depende dessa resposta: o Novo Testamento não menciona viagem alguma de Tomé à Índia.

O que a história sustenta sem dificuldade é que o evangelho chegou à Índia muito antes dos portugueses, que desembarcaram em 1498, e antes dos missionários protestantes, como William Carey e Henry Martyn. Quando Carey chegou a Bengala, em 1793, as igrejas de Kerala já existiam havia séculos.

Ore pelos cristãos de Kerala e de todo o país, herdeiros de uma das igrejas mais antigas do mundo, para que a fé que receberam seja transmitida com vigor às novas gerações. E pelos pastores do leste da Índia que ainda estudam a Bíblia sem formação, onde o curso de teologia em bengali quer chegar.

Foco de oração
Ore com a gente

Quem vive isso precisa de oração — e de formação

Receba todo mês motivos de oração reais pela Índia, ou conheça o projeto que traduz um curso de teologia para pastores indianos.

Assinar a newsletter Conhecer o projeto